sábado, 31 de julho de 2010

Entre as cordas deste ringue


Secreto segredo, este combate
Que no fundo de mim, antes do princípio, começa
Sem aviso, antes que a campainha toque, já me bate
No despido ringue, que é palco, desta minha triste peça

Não há esquiva, que se esquive, já não forças para a defesa
E um e outro, ganchos e uppercuts, atingem-me, aqui sou fácil presa
Frágil vela semi-acesa, na desdita destes dias, e solto, me escorre o sangue
Caio e volto a cair, sem cais nem canto neutro, na desventura de me quedar exangue

Vivi, num trapézio sem rede, foi a vida a minha paixão
Lutando mais um round, sem atirar a toalha ao chão
Mas hoje, foram-se as forças, vai-se-me tudo, fica o nada

E esta batalha, que batalho, não há glória, é derrota anunciada
Turvos sentidos, semi-rendidos, sou eu do outro lado do ringue, que desfiro golpes fatais
No secreto segredo desta luta, que luto, por luto, hoje morro um pouco mais


Vasco Guedes

sexta-feira, 30 de julho de 2010


Apaga-me o frio, que hoje me incendeia a alma
Acende-me a luz dos olhos, com a voz do teu olhar
Mata-me de vida, que a vontade, parece entre os dedos desaguar
Vaza-me esta dor do peito, no saber do sabor da tua calma

Rasga-me corpo desocupado, no vazio que me invade
Leva-me e eleva-me nas tuas asas, que hoje sou arcanjo proscrito
Caído dos céus, no fundo das trevas, sou desnudas penas, verbo não escrito
Caia-me de cores translúcidas, antes que a lucidez se me acabe

Faz-te fio de luz, que se desenha em cada eclipse,
Solta-me deste sentir órfão, ó tingir quão pálido
Leva-me de mim, deste meu secreto apocalipse

Permite-me que leia, no teu enleio, o infinito
Que me alumia, nesse sentir gentil e cálido
Resgata-me de mim, que hoje não sou mais que mudo grito

Vasco Guedes

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ardente morte lenta


Um atrás do outro, se rói
ardente vício, que no fundo do peito, dói
brilho cadente, que se escapa, num decadente respirar de fumo
rasga-se em galas de noite e dia, no fervor onde me consumo

Maldita perdição, meteoro de pouca graça,
Rendição que queimas, a cada passa
aterras em fogo, prendes-me e te soltas como ópio
sentença adiada, de uma morte anunciada, nu e suave caleidoscópio

Prometes acalmia, ó trágica profecia, de um assim morrer lento
dançante sedutora, insinuante provocadora, sem sombra nem rasto, te leva o vento
e matas-me um pouco mais, ó libertino cais onde me agarro

Sem voz, pela boca, ditas sentença, que o saber, o negar finjo
turvas-me os sentidos, agora rendidos, no negro ao que os pulmões tinjo
certeira bala, que me mata, nesta lenta agonia, de cada ardente cigarro.


Vasco Guedes

sábado, 24 de julho de 2010

Memórias da Saudade...por uma estrela no céu


Há 3 anos, nesta data...chegava-me uma devastadora noticia, um amigo de infância, ganhava o céu.
Não se perdeu de nós, de mim, pois ainda hoje, além da falta que as suas palavras fazem, e tudo mais... a saudade é maior que tudo.
Hoje não saberia escrever, mais do que escrevi nesse dia, daí que hoje deixe aqui o espelho das minhas palavras.

São lágrimas que hoje aqui derramo
Gritos de uma dor, que o peito me invade
Lágrimas, órfãs do teu sorriso de menino
Nestas páginas já sem cor, acordes que desafino
De um sorriso que se perdeu, hoje, sem idade
Que não surge, quando na noite te chamo

São lágrimas, que a guitarra geme
Ficou a pauta, só, balada inacabada, vazia
Voam as asas brancas, num céu de luto tingido
Um vagido perdido, uivo de quem sem ti, ficou perdido
Eras força, raio de luz e brisa amena, que a manhã trazia
Perdeu-se do mar as marés, sem o seu homem do leme

São lágrimas, herdeiras de toda uma vida
De sorrisos cúmplices, que se foram e não vão voltar
De sangue e luar, sem tempo nem qualquer geografia
Irmandade guerreira, que o tempo fez ser magia
Pilares do céu, erigidos na terra, salpicados de sal do mar
Em tardes de café de Inverno, e fim de um oceano sem partida

São lágrimas que me inundam o rosto
Sem forças me quedo neste chão vazio e escuro
Foram-se as forças, como as ondas no areal
E despido fiquei como as dunas, escritas neste sal
…dos olhos, que te levaram, e deixam saudades do futuro
De encontrar em ti, um novo sorriso, como amanhecer de Agosto

São lágrimas, que me deixam frágil, neste escuro abandonado
Memórias de tantas estórias, e tradições de secretos pactos
Ruínas de quem sou, assim me deixam ficar, na berma da estrada
À espera que a noite também me leve, antes de chegar a madrugada
Sombras de quem fui, as luzes que encontrei, na vida, nos seus actos
Fica agora órfão o palco, onde as lágrimas trinam este triste fado

São lágrimas… estas cruéis, vítimas da saudade
Éramos mais… vimos sorrir irmãos e cair, como as árvores, de pé
Fomos a honra de perpetuar, o nome destes elos, nosso clã
Feitos mais fortes que o aço, a cada abraço, nada era vã
Amanhecendo coragem, espírito, força e fé
Porque sabíamos que quem partiu, tinha ganho a eternidade

São lágrimas, que deixo, quando me pediram o sorrir
Que obrigo aos lábios, no seu abrigo, desenhar
Com orgulho e vaidade, não pela perda, mas pelo que vivemos
Sabendo que nada era nosso, tudo conquistamos, nos amigos que fizemos
Naquele ritual ardente, no silêncio que hoje se faz gritar
Nesta órfã nostalgia, desses dias, desse sentir

São lágrimas salgadas, de uma estrela que hoje nasceu no céu
Mais uma, tão minha, como me orgulhei de ser teu amigo
E o no céu vos olhos, estrelas minhas e rogo-vos esta prece
Sejam minhas mais esta noite…e sempre que a noite aparece
Sois vós, minha estrada, minha guia e meu porto de abrigo
Quando se me escapa a lua e noite me invade no seu negro véu

São lágrimas, que aqui deixo, neste meu tributo
Ao homem, músico das palavras e das pautas, escultor
Ao amigo, com quem cantei, sorri e chorei, e tantas vezes brindei
Fiel confidente, mesmo quando o longe, foi detalhe, muro que saltei
Estrofes de sal que deixo, nas rugas desta dor
São lágrimas, como lâminas que me trespassam o meu luto

São lágrimas que deixo, nas asas do vento
Ora mudo, desnudo, neste meu lamento
Porque nada mudou, por haver um fim anunciado
Foi a tua força que iludiu, e me deixou hoje despojado
De alma e corpo, de espírito e de sangue
Nas lágrimas amargas minhas, no chão exangue

São lágrimas, porque o céu não soube esperar
Chamou-te Deus, para o céu, a tua voz pintar
Pintaste-o assim , num novo tom de azul
Inundando-o da tua cor, do meu norte, sem sul
Lágrimas que derramo, num mudo gemido
Porque sem a tua alegria, sou hoje, um pouco, um anjo caído

São lágrimas que escrevo… derramo, nesta página nua,
O grito do desespero, desta hora que não era tua
Num fio de luz, que se pinta na pele
Horizonte suave, um beijo do céu na terra, em tons de mel
Todos os amanhãs que ficaram por acontecer
Por todos os sorrisos que na eternidade se fizeram ser

São lágrimas que escrevo…
Deste fado, solto choro, meu embaraço
Sou órfão de ti, amigo, do teu abraço
Órfão da palavra que aparecia sempre por anunciar
Certeira e amiga, como a voz se dizia sem falar
São lágrimas do rasgo que trago no peito
De o amanhã quando nascer, sem ti, não será tão perfeito.

Órfão, que numa estrela, nas noites mais escuras te irá encontrar…
Não morreste… ganhas-te a eternidade.
Repousa em paz.


Vasco Guedes, a 24 de Julho de 2007

(dedicado a todos que o céu chamou antes do tempo, fazem-me falta, mas sinto-vos em mim, a cada dia)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Beijo


Ardente desejo,
que tens aurora, na dança dos olhares que se cercam
e num ritual secreto, se encerram, num incessante ensejo
como eco silencioso, guardam o tempo, antes que os tempos se percam

Rendem-se os rostos, além da física, nas suas leis da gravidade
serve-se o sangue que ferve, pulsa, ardente tição
na escultura das silhuetas, que naquele ali, se fazem eternidade
no quase toque, quase frases se dizem a uma só respiração

Acoplam-se os lábios, velhos sábios, num trapézio sem rede,
prova-se o sabor da vida, mata-se no calor desta sede
onde se digladiam as línguas, nessa guerra sem quartel

Ardente desejo, arena dos sentidos, acesos à flor da pele
que conjugas o verbo, no seu tempo mais que perfeito
no doce sabor de um beijo, estrofe que nasce na boca, poema que vive no peito

Vasco Guedes

p.s. Hoje, a foto que me fez apaixonar por fotografia.
Robert Doisneau, O beijo do Hotel de Ville

quinta-feira, 22 de julho de 2010

...



No escuro da noite, entra-me um Tom Waits, pela janela entreaberta
nos acordes de Pinho Vargas, na cortina azul, de cetim dançante
como silhueta de um vestido despido, caído aos pés de uma cama, agora deserta
e na janela, assim se cruzam, a música e o meu olhar distante.

Já não estou aqui, num qualquer lugar,
sou a sombra transparente, de presente que é já passado
nos dedos ainda se sonham os sonhos, no ébano e marfim por tocar
e os passos perdem-se de vez, descompassados , por um caminho “nunca antes caminhado”

E o escuro, hoje é meu.
Hoje, sou eu!
Neste aqui sem azimute, vazio, frio incêndio

E mais que nunca, agarro-me à música
Aos acordes desse Tom Waits, nesta intimidade pública
Para que não me afogue num qualquer vão de escadas, neste grito escuro de silêncio.

Eu, sem voz para o nome, hoje.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Adágio


Escuto as ondas do mar, poema de beleza
no silêncio das marcas de pés escritos na areia,
além dos sussurros do vento nas dunas, ásperos por natureza
escuto o mar inteiro, como ode, doce canto de sereia…

Bebo o sal, de tantas lágrimas, de partidas e chegadas
provo as histórias da espuma branca, no onde das ondas, de um qualquer onde
a saudade e os braços abertos, em regressos, no sentir que se não esconde
sorvo as estrelas do mar e do véu do céu, que guiam nas escuras madrugadas

Por entre os dedos, entrelinhas de mar, escorrem cantos mudos, guardo-lhes o sabor
como pétalas de uma flor de sal, que num murmúrio, de um pôr do sol, fez seu cais
num trinar assim, em mim, dedilhar de uma grafia de aromas, luzes e cor

No fundo deste meu búzio, há segredos, viagens e poemas, sem plágio
na prosa de uma praia, que é minha, hoje um pouco mais
na suave musicalidade, que se olha, se vive e se sente, como adágio


Vasco Guedes
(sim, tudo isto foi escrito, depois de ter de ouvido o mar inteiro, no fundo de um búzio, despertando-me os 5 sentidos)