sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O mais antigo ofício


A ti, amante do amor comprado, que vendeste o teu eu, de seres menina
ousaste ser larva , provaste o céu e as estrelas, na gentileza de seres borboleta
na elipse dos teus passos, sem tréguas, te quedaste, na mais suja sarjeta
esculpindo as razões, entre sombras, blush, patchouli e purpurina…


Tatuas o corpo, em esquinas esquecidas
entre a noite de alma fria, em avenidas escondidas
prometes sonhos, fantasias, a troco de gastas rotas notas
e dás por ti, a guardar os trocos, no salto oco, da botas

Enquanto tinges os olhos de noite, e pintas os lábios, da cor do pecado
procuras por ti, mas já te não vês, do outro lado, do baço espelho
esqueces a personagem, que finges, a quem na cama, se deita teu lado,
agora em cena, em ti, as luzes se apagaram, apenas és, corpo usado e velho

De olhos vazios, sorris, nesses lábios escarlate
aceitando o vão de escadas, o sujo quarto de pensão,
ali és imperatriz dos sentidos, rainha de luxúria e paixão
nesse trapézio sem rede mergulhas, sem medo que a vida te mate

Afogas o ser, com as lágrimas que já não choras
submersa nas sombras, a luz da tua distante inocência
jaz agora a tua alma, na desdita nua indecência
da fugaz vida tua, nesse lento passar das horas

És todas as mulheres, menos tu
artífice dos talentos desse velho ofício
teu palco é teu corpo, vestido de nu
ó proscrita dos dias, é a noite teu vício

Da tua arte, são ”mecenas”
doutores dos dias, filhos da noite, bestas obscenas
vampiros, que te sugam alma e o corpo te tomam
senhores que te escravizam, te invadem e te domam

Apagas o ali, naquele fingir, a cada vagir, o sentir que já não sentes
que é bom e melhor, o melhor, dessa vez, a cada vez, já nem reparas se mentes
e de costas, foges dali, mordes as fronhas, ranges os dentes, de olhos cerrados
esquecendo essa morte anunciada dos sentidos, de pensamentos ali encerrados

E nessas desiguais transversais, onde te perdes, procuras teu cavaleiro andante
alguém que de ti, te salve, e te leve, e que ali, seja teu, nem que seja por um só instante,
errante, te encontras, escondendo as nódoas negras e as meias rotas, numa jura de luz e de vida
como ópio te consumiste, e te deixas-te arder, fumegante, agora nas sombras da sida

De pernas bambas, as paredes testemunhas, te amparam o caminho
te levam, que a madrugada chega, e com ela parte, esse teu desalinho
até ao entardecer, até ao teu regressar, teu fado que te espera e encontra
no desencontro das calçadas, de sombras tatuadas, na tua esquina, como montra

E ali, com o corpo tatuado, nas esquinas de acre perfume opaco
morres hoje um pouco mais, mais uma batalha perdida, nessa tua luta
já nada mais és, que uma velha boneca de trapos, com a vida feita num caco
és tudo o que nada é, nas entrelinhas de uma viela, num só trago de cicuta

Vasco Guedes.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lisboa


És mais que cidade, és saudade, és mulher apaixonante
no ar que com que pintas, o para sempre, em cada instante
perfumas a alma do mar, num beijo, de Tejo, que desagua no teu regaço
na textura das margens que se derramam, no sabor delicado, de um abraço

És poema e as ruas, são tuas, nuas estrofes, translúcidas
das trovas derramadas por essas gentis, sete colinas
ó musa de luz, que seduz, as meninas dos olhos, varinas
menina e moça, além tempo, encanto de vidas em ti vividas

E ali, ao longe, do outro lado do rio, te abraça um Cristo – Rei
abençoando-te, do Chiado, à Estrela, da Penha de França a Santa Catarina
nas marchas, com que marchas, no teu corpo de mulher, com trejeitos de menina

És parte de mim, e és tão mais do que sou,
és mais do que sei, e sei-te saber, no saber de quem te provou
guardando-te em mim, no fundo do ser, que só eu sei

Deixo-me ficar, rendido assim, nos olhos cativos, ao teu nobre cenário
com que escreves, caleidoscópio das gentes, as rendas do teu estuário,
pois em ti descubro, a outra parte do azul, do céu, que é meu conforto
além do rio dourado que no peito guardo, as saudades do meu Porto

E assim és postal de lembranças, nas entrelinhas do meu olhar,
recitadas entre as muralhas do Castelo de S.Jorge, e o silêncio de uma prece
no desacontecer que acontece, teu viver, que quem vive, não esquece
reminiscência das naus que partiram, e o futuro esculpiram, nas ondas desse teu mar

És a estória da memória, entre Alcântara, minha Alvorada
e o beber de cada entardecer, nos fados do Bairro Alto, Alfama e Madragoa
que do alto de Santa Justa, se derrama no horizonte, minha alma enamorada

Em ti perco o olhar, em ti, me encontro, na ventura de te (re)descobrir
na minha pronúncia do norte, com que te leio, por sorte, minha senhora, Lisboa
em ti me elevo, em mim te levo, no meu jeito de te sentir.


Vasco Guedes