
És mais que cidade, és saudade, és mulher apaixonante
no ar que com que pintas, o para sempre, em cada instante
perfumas a alma do mar, num beijo, de Tejo, que desagua no teu regaço
na textura das margens que se derramam, no sabor delicado, de um abraço
És poema e as ruas, são tuas, nuas estrofes, translúcidas
das trovas derramadas por essas gentis, sete colinas
ó musa de luz, que seduz, as meninas dos olhos, varinas
menina e moça, além tempo, encanto de vidas em ti vividas
E ali, ao longe, do outro lado do rio, te abraça um Cristo – Rei
abençoando-te, do Chiado, à Estrela, da Penha de França a Santa Catarina
nas marchas, com que marchas, no teu corpo de mulher, com trejeitos de menina
És parte de mim, e és tão mais do que sou,
és mais do que sei, e sei-te saber, no saber de quem te provou
guardando-te em mim, no fundo do ser, que só eu sei
Deixo-me ficar, rendido assim, nos olhos cativos, ao teu nobre cenário
com que escreves, caleidoscópio das gentes, as rendas do teu estuário,
pois em ti descubro, a outra parte do azul, do céu, que é meu conforto
além do rio dourado que no peito guardo, as saudades do meu Porto
E assim és postal de lembranças, nas entrelinhas do meu olhar,
recitadas entre as muralhas do Castelo de S.Jorge, e o silêncio de uma prece
no desacontecer que acontece, teu viver, que quem vive, não esquece
reminiscência das naus que partiram, e o futuro esculpiram, nas ondas desse teu mar
És a estória da memória, entre Alcântara, minha Alvorada
e o beber de cada entardecer, nos fados do Bairro Alto, Alfama e Madragoa
que do alto de Santa Justa, se derrama no horizonte, minha alma enamorada
Em ti perco o olhar, em ti, me encontro, na ventura de te (re)descobrir
na minha pronúncia do norte, com que te leio, por sorte, minha senhora, Lisboa
em ti me elevo, em mim te levo, no meu jeito de te sentir.
Vasco Guedes
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