quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tu, o EU maiúsculo do eu que sou


Sábios, os lábios teus,
Que murmuram esperança, que esculpes nos meus
Que no silêncio das palavras, é a voz que diz mais que tudo
No sabor de um beijo frio, no calor de um sorriso carnudo

Sensata alma alada, do teu olhar de soslaio
Que me enlaça e esvoaça. sobre o abismo das minhas loucuras
Que me lê, o meu, sob a armadura das lentes escuras
Esse teu olhar de menina-mulher, que me agarra, se eu caio

Gentil geografia, o teu corpo, na dança dos teus dedos
Que me buscam e resgatam, e num abraço, me levas os medos
É no intervalo das palavras, que te fazes cúmplice, e dás o que melhor és
De peito aberto, como tantas vezes me viste fazer, mergulhas no céu e vences as marés

E num só gesto, em cada um, és prosa maior que soneto
És a tinta que se não gasta, o antes, durante e depois, jamais incompleto
E te fazes rosa-dos-ventos, neste meu e outro qualquer momento,
No desalinho do caminho, és norte, por sorte, destino e meu alento

És tu, és a parte que se não parte, de quem sou, que se não dome
A força da alma, e a alma da força que se esforça um pouco mais
Pelo eu, pelo tu, pelo o um que somos, por nosso nome
És a luz ateada, no entrelaçar dos dedos, nas mãos dadas, esses “agoras” imortais

É em ti que emerjo, meu céu sem fim,
Amiga, confidente, amante e mulher
Meu perdão, vida, na redescoberta do viver
És o EU, nas maiúsculas que são, o eu que há em mim.

Vasco Guedes

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

“um tipo analógico, num mundo digital”


A agulha despe o vinil, naquela crua sensualidade
no fumo dançante de mais um cigarro ardente
suave quente e frio, em cada acorde que geme pungente
de uns stones além tempo, naquela nua “Angie” sem idade

Indomada balada, acicata a alma, acende uma, após outra, cada veia
perdem-se as horas, em noites sem fim, a cada sussurro, a cada vagir
no desencontro das silhuetas, encontram-se os corpos, num vir, sem partir
ao sabor do toque quente, da inquieta agulha, que a noite incendeia

É música que se escreve, na pauta do nosso despido perfil
nesta cama, navego no teu corpo, como a agulha, no vinil
e descubro rock, hip-hop, r&b, pop, dance, house, até ser dia

No ritmo de saber, sermos música, original, sem covers, nesta nossa alquimia
e dou por mim ao escrever esta letra, a plagiar, um outro, não me leves a mal
por me descobrir, no velho vinil, ser “um tipo analógico, num mundo digital”

Vasco Guedes