sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O mais antigo ofício


A ti, amante do amor comprado, que vendeste o teu eu, de seres menina
ousaste ser larva , provaste o céu e as estrelas, na gentileza de seres borboleta
na elipse dos teus passos, sem tréguas, te quedaste, na mais suja sarjeta
esculpindo as razões, entre sombras, blush, patchouli e purpurina…


Tatuas o corpo, em esquinas esquecidas
entre a noite de alma fria, em avenidas escondidas
prometes sonhos, fantasias, a troco de gastas rotas notas
e dás por ti, a guardar os trocos, no salto oco, da botas

Enquanto tinges os olhos de noite, e pintas os lábios, da cor do pecado
procuras por ti, mas já te não vês, do outro lado, do baço espelho
esqueces a personagem, que finges, a quem na cama, se deita teu lado,
agora em cena, em ti, as luzes se apagaram, apenas és, corpo usado e velho

De olhos vazios, sorris, nesses lábios escarlate
aceitando o vão de escadas, o sujo quarto de pensão,
ali és imperatriz dos sentidos, rainha de luxúria e paixão
nesse trapézio sem rede mergulhas, sem medo que a vida te mate

Afogas o ser, com as lágrimas que já não choras
submersa nas sombras, a luz da tua distante inocência
jaz agora a tua alma, na desdita nua indecência
da fugaz vida tua, nesse lento passar das horas

És todas as mulheres, menos tu
artífice dos talentos desse velho ofício
teu palco é teu corpo, vestido de nu
ó proscrita dos dias, é a noite teu vício

Da tua arte, são ”mecenas”
doutores dos dias, filhos da noite, bestas obscenas
vampiros, que te sugam alma e o corpo te tomam
senhores que te escravizam, te invadem e te domam

Apagas o ali, naquele fingir, a cada vagir, o sentir que já não sentes
que é bom e melhor, o melhor, dessa vez, a cada vez, já nem reparas se mentes
e de costas, foges dali, mordes as fronhas, ranges os dentes, de olhos cerrados
esquecendo essa morte anunciada dos sentidos, de pensamentos ali encerrados

E nessas desiguais transversais, onde te perdes, procuras teu cavaleiro andante
alguém que de ti, te salve, e te leve, e que ali, seja teu, nem que seja por um só instante,
errante, te encontras, escondendo as nódoas negras e as meias rotas, numa jura de luz e de vida
como ópio te consumiste, e te deixas-te arder, fumegante, agora nas sombras da sida

De pernas bambas, as paredes testemunhas, te amparam o caminho
te levam, que a madrugada chega, e com ela parte, esse teu desalinho
até ao entardecer, até ao teu regressar, teu fado que te espera e encontra
no desencontro das calçadas, de sombras tatuadas, na tua esquina, como montra

E ali, com o corpo tatuado, nas esquinas de acre perfume opaco
morres hoje um pouco mais, mais uma batalha perdida, nessa tua luta
já nada mais és, que uma velha boneca de trapos, com a vida feita num caco
és tudo o que nada é, nas entrelinhas de uma viela, num só trago de cicuta

Vasco Guedes.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lisboa


És mais que cidade, és saudade, és mulher apaixonante
no ar que com que pintas, o para sempre, em cada instante
perfumas a alma do mar, num beijo, de Tejo, que desagua no teu regaço
na textura das margens que se derramam, no sabor delicado, de um abraço

És poema e as ruas, são tuas, nuas estrofes, translúcidas
das trovas derramadas por essas gentis, sete colinas
ó musa de luz, que seduz, as meninas dos olhos, varinas
menina e moça, além tempo, encanto de vidas em ti vividas

E ali, ao longe, do outro lado do rio, te abraça um Cristo – Rei
abençoando-te, do Chiado, à Estrela, da Penha de França a Santa Catarina
nas marchas, com que marchas, no teu corpo de mulher, com trejeitos de menina

És parte de mim, e és tão mais do que sou,
és mais do que sei, e sei-te saber, no saber de quem te provou
guardando-te em mim, no fundo do ser, que só eu sei

Deixo-me ficar, rendido assim, nos olhos cativos, ao teu nobre cenário
com que escreves, caleidoscópio das gentes, as rendas do teu estuário,
pois em ti descubro, a outra parte do azul, do céu, que é meu conforto
além do rio dourado que no peito guardo, as saudades do meu Porto

E assim és postal de lembranças, nas entrelinhas do meu olhar,
recitadas entre as muralhas do Castelo de S.Jorge, e o silêncio de uma prece
no desacontecer que acontece, teu viver, que quem vive, não esquece
reminiscência das naus que partiram, e o futuro esculpiram, nas ondas desse teu mar

És a estória da memória, entre Alcântara, minha Alvorada
e o beber de cada entardecer, nos fados do Bairro Alto, Alfama e Madragoa
que do alto de Santa Justa, se derrama no horizonte, minha alma enamorada

Em ti perco o olhar, em ti, me encontro, na ventura de te (re)descobrir
na minha pronúncia do norte, com que te leio, por sorte, minha senhora, Lisboa
em ti me elevo, em mim te levo, no meu jeito de te sentir.


Vasco Guedes

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tu, o EU maiúsculo do eu que sou


Sábios, os lábios teus,
Que murmuram esperança, que esculpes nos meus
Que no silêncio das palavras, é a voz que diz mais que tudo
No sabor de um beijo frio, no calor de um sorriso carnudo

Sensata alma alada, do teu olhar de soslaio
Que me enlaça e esvoaça. sobre o abismo das minhas loucuras
Que me lê, o meu, sob a armadura das lentes escuras
Esse teu olhar de menina-mulher, que me agarra, se eu caio

Gentil geografia, o teu corpo, na dança dos teus dedos
Que me buscam e resgatam, e num abraço, me levas os medos
É no intervalo das palavras, que te fazes cúmplice, e dás o que melhor és
De peito aberto, como tantas vezes me viste fazer, mergulhas no céu e vences as marés

E num só gesto, em cada um, és prosa maior que soneto
És a tinta que se não gasta, o antes, durante e depois, jamais incompleto
E te fazes rosa-dos-ventos, neste meu e outro qualquer momento,
No desalinho do caminho, és norte, por sorte, destino e meu alento

És tu, és a parte que se não parte, de quem sou, que se não dome
A força da alma, e a alma da força que se esforça um pouco mais
Pelo eu, pelo tu, pelo o um que somos, por nosso nome
És a luz ateada, no entrelaçar dos dedos, nas mãos dadas, esses “agoras” imortais

É em ti que emerjo, meu céu sem fim,
Amiga, confidente, amante e mulher
Meu perdão, vida, na redescoberta do viver
És o EU, nas maiúsculas que são, o eu que há em mim.

Vasco Guedes

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

“um tipo analógico, num mundo digital”


A agulha despe o vinil, naquela crua sensualidade
no fumo dançante de mais um cigarro ardente
suave quente e frio, em cada acorde que geme pungente
de uns stones além tempo, naquela nua “Angie” sem idade

Indomada balada, acicata a alma, acende uma, após outra, cada veia
perdem-se as horas, em noites sem fim, a cada sussurro, a cada vagir
no desencontro das silhuetas, encontram-se os corpos, num vir, sem partir
ao sabor do toque quente, da inquieta agulha, que a noite incendeia

É música que se escreve, na pauta do nosso despido perfil
nesta cama, navego no teu corpo, como a agulha, no vinil
e descubro rock, hip-hop, r&b, pop, dance, house, até ser dia

No ritmo de saber, sermos música, original, sem covers, nesta nossa alquimia
e dou por mim ao escrever esta letra, a plagiar, um outro, não me leves a mal
por me descobrir, no velho vinil, ser “um tipo analógico, num mundo digital”

Vasco Guedes

sábado, 31 de julho de 2010

Entre as cordas deste ringue


Secreto segredo, este combate
Que no fundo de mim, antes do princípio, começa
Sem aviso, antes que a campainha toque, já me bate
No despido ringue, que é palco, desta minha triste peça

Não há esquiva, que se esquive, já não forças para a defesa
E um e outro, ganchos e uppercuts, atingem-me, aqui sou fácil presa
Frágil vela semi-acesa, na desdita destes dias, e solto, me escorre o sangue
Caio e volto a cair, sem cais nem canto neutro, na desventura de me quedar exangue

Vivi, num trapézio sem rede, foi a vida a minha paixão
Lutando mais um round, sem atirar a toalha ao chão
Mas hoje, foram-se as forças, vai-se-me tudo, fica o nada

E esta batalha, que batalho, não há glória, é derrota anunciada
Turvos sentidos, semi-rendidos, sou eu do outro lado do ringue, que desfiro golpes fatais
No secreto segredo desta luta, que luto, por luto, hoje morro um pouco mais


Vasco Guedes

sexta-feira, 30 de julho de 2010


Apaga-me o frio, que hoje me incendeia a alma
Acende-me a luz dos olhos, com a voz do teu olhar
Mata-me de vida, que a vontade, parece entre os dedos desaguar
Vaza-me esta dor do peito, no saber do sabor da tua calma

Rasga-me corpo desocupado, no vazio que me invade
Leva-me e eleva-me nas tuas asas, que hoje sou arcanjo proscrito
Caído dos céus, no fundo das trevas, sou desnudas penas, verbo não escrito
Caia-me de cores translúcidas, antes que a lucidez se me acabe

Faz-te fio de luz, que se desenha em cada eclipse,
Solta-me deste sentir órfão, ó tingir quão pálido
Leva-me de mim, deste meu secreto apocalipse

Permite-me que leia, no teu enleio, o infinito
Que me alumia, nesse sentir gentil e cálido
Resgata-me de mim, que hoje não sou mais que mudo grito

Vasco Guedes

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ardente morte lenta


Um atrás do outro, se rói
ardente vício, que no fundo do peito, dói
brilho cadente, que se escapa, num decadente respirar de fumo
rasga-se em galas de noite e dia, no fervor onde me consumo

Maldita perdição, meteoro de pouca graça,
Rendição que queimas, a cada passa
aterras em fogo, prendes-me e te soltas como ópio
sentença adiada, de uma morte anunciada, nu e suave caleidoscópio

Prometes acalmia, ó trágica profecia, de um assim morrer lento
dançante sedutora, insinuante provocadora, sem sombra nem rasto, te leva o vento
e matas-me um pouco mais, ó libertino cais onde me agarro

Sem voz, pela boca, ditas sentença, que o saber, o negar finjo
turvas-me os sentidos, agora rendidos, no negro ao que os pulmões tinjo
certeira bala, que me mata, nesta lenta agonia, de cada ardente cigarro.


Vasco Guedes

sábado, 24 de julho de 2010

Memórias da Saudade...por uma estrela no céu


Há 3 anos, nesta data...chegava-me uma devastadora noticia, um amigo de infância, ganhava o céu.
Não se perdeu de nós, de mim, pois ainda hoje, além da falta que as suas palavras fazem, e tudo mais... a saudade é maior que tudo.
Hoje não saberia escrever, mais do que escrevi nesse dia, daí que hoje deixe aqui o espelho das minhas palavras.

São lágrimas que hoje aqui derramo
Gritos de uma dor, que o peito me invade
Lágrimas, órfãs do teu sorriso de menino
Nestas páginas já sem cor, acordes que desafino
De um sorriso que se perdeu, hoje, sem idade
Que não surge, quando na noite te chamo

São lágrimas, que a guitarra geme
Ficou a pauta, só, balada inacabada, vazia
Voam as asas brancas, num céu de luto tingido
Um vagido perdido, uivo de quem sem ti, ficou perdido
Eras força, raio de luz e brisa amena, que a manhã trazia
Perdeu-se do mar as marés, sem o seu homem do leme

São lágrimas, herdeiras de toda uma vida
De sorrisos cúmplices, que se foram e não vão voltar
De sangue e luar, sem tempo nem qualquer geografia
Irmandade guerreira, que o tempo fez ser magia
Pilares do céu, erigidos na terra, salpicados de sal do mar
Em tardes de café de Inverno, e fim de um oceano sem partida

São lágrimas que me inundam o rosto
Sem forças me quedo neste chão vazio e escuro
Foram-se as forças, como as ondas no areal
E despido fiquei como as dunas, escritas neste sal
…dos olhos, que te levaram, e deixam saudades do futuro
De encontrar em ti, um novo sorriso, como amanhecer de Agosto

São lágrimas, que me deixam frágil, neste escuro abandonado
Memórias de tantas estórias, e tradições de secretos pactos
Ruínas de quem sou, assim me deixam ficar, na berma da estrada
À espera que a noite também me leve, antes de chegar a madrugada
Sombras de quem fui, as luzes que encontrei, na vida, nos seus actos
Fica agora órfão o palco, onde as lágrimas trinam este triste fado

São lágrimas… estas cruéis, vítimas da saudade
Éramos mais… vimos sorrir irmãos e cair, como as árvores, de pé
Fomos a honra de perpetuar, o nome destes elos, nosso clã
Feitos mais fortes que o aço, a cada abraço, nada era vã
Amanhecendo coragem, espírito, força e fé
Porque sabíamos que quem partiu, tinha ganho a eternidade

São lágrimas, que deixo, quando me pediram o sorrir
Que obrigo aos lábios, no seu abrigo, desenhar
Com orgulho e vaidade, não pela perda, mas pelo que vivemos
Sabendo que nada era nosso, tudo conquistamos, nos amigos que fizemos
Naquele ritual ardente, no silêncio que hoje se faz gritar
Nesta órfã nostalgia, desses dias, desse sentir

São lágrimas salgadas, de uma estrela que hoje nasceu no céu
Mais uma, tão minha, como me orgulhei de ser teu amigo
E o no céu vos olhos, estrelas minhas e rogo-vos esta prece
Sejam minhas mais esta noite…e sempre que a noite aparece
Sois vós, minha estrada, minha guia e meu porto de abrigo
Quando se me escapa a lua e noite me invade no seu negro véu

São lágrimas, que aqui deixo, neste meu tributo
Ao homem, músico das palavras e das pautas, escultor
Ao amigo, com quem cantei, sorri e chorei, e tantas vezes brindei
Fiel confidente, mesmo quando o longe, foi detalhe, muro que saltei
Estrofes de sal que deixo, nas rugas desta dor
São lágrimas, como lâminas que me trespassam o meu luto

São lágrimas que deixo, nas asas do vento
Ora mudo, desnudo, neste meu lamento
Porque nada mudou, por haver um fim anunciado
Foi a tua força que iludiu, e me deixou hoje despojado
De alma e corpo, de espírito e de sangue
Nas lágrimas amargas minhas, no chão exangue

São lágrimas, porque o céu não soube esperar
Chamou-te Deus, para o céu, a tua voz pintar
Pintaste-o assim , num novo tom de azul
Inundando-o da tua cor, do meu norte, sem sul
Lágrimas que derramo, num mudo gemido
Porque sem a tua alegria, sou hoje, um pouco, um anjo caído

São lágrimas que escrevo… derramo, nesta página nua,
O grito do desespero, desta hora que não era tua
Num fio de luz, que se pinta na pele
Horizonte suave, um beijo do céu na terra, em tons de mel
Todos os amanhãs que ficaram por acontecer
Por todos os sorrisos que na eternidade se fizeram ser

São lágrimas que escrevo…
Deste fado, solto choro, meu embaraço
Sou órfão de ti, amigo, do teu abraço
Órfão da palavra que aparecia sempre por anunciar
Certeira e amiga, como a voz se dizia sem falar
São lágrimas do rasgo que trago no peito
De o amanhã quando nascer, sem ti, não será tão perfeito.

Órfão, que numa estrela, nas noites mais escuras te irá encontrar…
Não morreste… ganhas-te a eternidade.
Repousa em paz.


Vasco Guedes, a 24 de Julho de 2007

(dedicado a todos que o céu chamou antes do tempo, fazem-me falta, mas sinto-vos em mim, a cada dia)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Beijo


Ardente desejo,
que tens aurora, na dança dos olhares que se cercam
e num ritual secreto, se encerram, num incessante ensejo
como eco silencioso, guardam o tempo, antes que os tempos se percam

Rendem-se os rostos, além da física, nas suas leis da gravidade
serve-se o sangue que ferve, pulsa, ardente tição
na escultura das silhuetas, que naquele ali, se fazem eternidade
no quase toque, quase frases se dizem a uma só respiração

Acoplam-se os lábios, velhos sábios, num trapézio sem rede,
prova-se o sabor da vida, mata-se no calor desta sede
onde se digladiam as línguas, nessa guerra sem quartel

Ardente desejo, arena dos sentidos, acesos à flor da pele
que conjugas o verbo, no seu tempo mais que perfeito
no doce sabor de um beijo, estrofe que nasce na boca, poema que vive no peito

Vasco Guedes

p.s. Hoje, a foto que me fez apaixonar por fotografia.
Robert Doisneau, O beijo do Hotel de Ville

quinta-feira, 22 de julho de 2010

...



No escuro da noite, entra-me um Tom Waits, pela janela entreaberta
nos acordes de Pinho Vargas, na cortina azul, de cetim dançante
como silhueta de um vestido despido, caído aos pés de uma cama, agora deserta
e na janela, assim se cruzam, a música e o meu olhar distante.

Já não estou aqui, num qualquer lugar,
sou a sombra transparente, de presente que é já passado
nos dedos ainda se sonham os sonhos, no ébano e marfim por tocar
e os passos perdem-se de vez, descompassados , por um caminho “nunca antes caminhado”

E o escuro, hoje é meu.
Hoje, sou eu!
Neste aqui sem azimute, vazio, frio incêndio

E mais que nunca, agarro-me à música
Aos acordes desse Tom Waits, nesta intimidade pública
Para que não me afogue num qualquer vão de escadas, neste grito escuro de silêncio.

Eu, sem voz para o nome, hoje.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Adágio


Escuto as ondas do mar, poema de beleza
no silêncio das marcas de pés escritos na areia,
além dos sussurros do vento nas dunas, ásperos por natureza
escuto o mar inteiro, como ode, doce canto de sereia…

Bebo o sal, de tantas lágrimas, de partidas e chegadas
provo as histórias da espuma branca, no onde das ondas, de um qualquer onde
a saudade e os braços abertos, em regressos, no sentir que se não esconde
sorvo as estrelas do mar e do véu do céu, que guiam nas escuras madrugadas

Por entre os dedos, entrelinhas de mar, escorrem cantos mudos, guardo-lhes o sabor
como pétalas de uma flor de sal, que num murmúrio, de um pôr do sol, fez seu cais
num trinar assim, em mim, dedilhar de uma grafia de aromas, luzes e cor

No fundo deste meu búzio, há segredos, viagens e poemas, sem plágio
na prosa de uma praia, que é minha, hoje um pouco mais
na suave musicalidade, que se olha, se vive e se sente, como adágio


Vasco Guedes
(sim, tudo isto foi escrito, depois de ter de ouvido o mar inteiro, no fundo de um búzio, despertando-me os 5 sentidos)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Aquela (outra) varanda do Sol


Hoje, o tempo aqui não passa,
perderam-se os passos de quem passa na praça
esta varanda, te enlaça e te guarda
e valsa contigo o dia, que o tempo do dia, te aguarda

Hoje, vai ser sempre meio-dia
do alto de ti, nos teus fios de oiro e magia,
vou brincar de baloiço, pintar sombras, na tua varanda
jogar de escondidas e outras partidas, ser infante, será minha demanda

Hoje o tempo, vai fugir das horas a qualquer minuto,
será menino também, será esse o seu tributo,
e o fruto das horas sem tempo, ali beberemos

Sobre a varanda dos homens, dos prazos fugidios,
pousaremos o tempo, como nas margens de rios,
e juntos, na tua varanda, a ventura do agora, viveremos.

Vasco Guedes

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Muy Nobre e Invicta Senhora


Olá, digo-te no silêncio desta nossa cumplicidade
no sorriso que sabemos, nas entrelinhas, escrever de soslaio
mergulhando no teu abraço, eterno, gentil, sem idade
e no teu regaço terno, subtil, amanheci, em cada meu ensaio

Olá, dizes-me de volta, acolhendo-me os passos, neste regresso
são tuas ruas, minhas linhas nuas, és-me verbo e inspiração
a voz em surdina no vento, meu alento, minha musa, alma e coração
e albergas-me no teu colo, no embalo sem intervalo, que te não passo

Em ti me perco, de novo, de cada vez, como se fossem as primeiras
em ti me encontro, uma vez mais, da Foz às Antas, debruçado nas muralhas e ameias
ébrio do perfume que deixas nas tuas vielas, artérias, ruas e veias, de dama burguesa convicta

E aí, em ti, meu porto de abrigo, ombro amigo, boémio, etílico e eclético
viajo nas silhuetas de ampulhetas, que o tempo é detalhe, mesmo num velho eléctrico
nestas minhas jornadas, entre as palavras e as calçadas, por teu nome, companheira, Muy Nobre e Invicta

Olá, te digo, meu Porto,
nascente do brilho dos meus olhos, foz do meu conforto.
Olá, me dizes de volta, tu que tanto me és, emprestando-me alento
no abraço com que me acolhes, nesse teu místico talento

Olá, te digo, nos silêncios e de todas as vezes que te escrevi
como admirador e amante, enamorado, desde que te conheci
olá me dizes, deixando-te redescobrir a cada vez, com encantos novos e desiguais
com a promessa, que um adeus não amanheça jamais

Vivendo em mim, a cada olá, a cada até amanhã, num até breve
deixando-me em ti viver, entre as sombras da Sé, do palco do Rivoli e as luzes da Boavista
vivendo a vida, como a vida sabe ser, tão perto do coração, ainda que longe da vista

Olá, minha cidade
Minha dama, Senhora da minha saudade
Vives-me vida, e em ti vivo, até que a vida me leve

Por tantas vezes que te escrevi, tanto por ti, fica sempre por dizer…
Obrigado por isso, meu Porto.
(perdoa se te repito as palavras, nesta minha contemplação)

Vasco Guedes

domingo, 18 de julho de 2010

Prende-me na liberdade do amor e da paixão


Guarda-me em ti, prende-te livre, em mim
serão grilhões e algemas, os corpos suados, as pernas entrelaçadas
que sem asas, voarei sobre o teu corpo, pousando nos teus lábios de cetim
e cativo de ti me farei livre, como a noite, encontrando em ti, o sabor das madrugadas

Vem, amarra-me ao vento, entre olhares cúmplices gemidos
Além fronteira de um qualquer horizonte, em sombras chinesas de corpos despidos
aflui, como o sangue que me flui nas veias, e acende-me a voz desta paixão muda
que grita e que brada, na tinta dos olhos, e unhas cravadas, no torso de mais uma noite desnuda

Vem, prende-me nas linhas dos teus ombros despidos… e ensina-me a ler
a voz que tatuaste na subpele, de desejo, paixão e luxúria, como valsa e dança tribal
aferrolha-me o corpo, solta-me a alma, que esta noite, o amor puro e lascívia louca, em nós afluem

Algema-me, nesta agridoce liberdade, nas margens da brisa, onde me fazes querer prender
solta o verso arfante, que no cume do teu decote, num orgasmo, reclama independência animal
vem, solta a liberdade do soneto, que dos corpos nossos , entre o branco e o preto, seremos a cor, de um voluptuoso requiem.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A dança perfumada de mulher (o além tempo que és)


Dança-me na menina dos olhos, menina,
em traços de luz, no meu olhar desaguas.
Aquieta-me este desassossego, no teu jeito de bailarina
na magia dos teus passos, nessas tuas danças nuas

Baila, na geografia dos tempos, sê meus montes e meus lagos
risca as orlas do tempo que sou, a brisa solarenga na tua melodia
faz-te lusco-fusco, onde me ofusco, faz imperecíveis, os tempos vagos
em cada afago, a cada madrugada, dança-me nos olhos, o tempo sem fim, mulher, filha de Maria,

Baila a pungente ária de cada noite, onde és do tempo, meu horizonte
esculpe a arte que és, na tela de cada passo, a cada gesto, à tua maneira
tu que me és foz dos dias, cada teu abraço dançante, cada minha eterna ponte

Dança, faz do presente, prenda, o nosso presente, um futuro infindo, sem prazo,
em cada rua, em cada praça, onde o tempo não passa, na tua porta, à soleira
nos tangentes perfis dos rios, dança-me os perpétuos segundos de cada ocaso

Dança, escreve-me um post scriptum a cada fim de tarde
um sempre depois, depois que depois, ainda que o tempo tarde…
um para sempre e um pouco mais, em sempre similares desiguais
pois no tempo do tempo, seremos juntos, que dois…bem mais.

Baila-me, a dança que és, no sorriso que suspira nos meus lábios
na cor do brilho dos olhos, no sentir que não se ensina aos sábios
o desmaio de cada ensaio, no palco das cenas, onde me és sina
dança-me a subpele, nos sigilosos andamentos, a tua dança, menina

Dança-me a cada agora, a cada para sempre
acende-me os sentidos, cada vez que a tua dança relembre
a cada silêncio, antes de cada palavra por dizer

Baila as reticências sem ciências, do se saber sentir
a cor de um beijo, que se prova, sem se pedir
dança-me assim, de pés descalços, o sabor de, menina…o sabor de seres mulher


Vasco Guedes

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Público segredo


A noite acorda lá fora,
como me acordas as veias, por entre os corpos despidos.
Na dança insinuante, que me acicata os sentidos.
Neste aqui, onde nada mais existe, nada mais do que este agora.

Do meu corpo, fazes palco de emoções, desejo e calor
em traços de luz, te soltas e te entregas, sem negas ou pudor,
num tango feito de silhuetas, em traços de poetas, sabor escarlate.
Entregas-te vida, antes que o desejo me mate

Indecentemente inocente, desafias, e cativo me faço, na tua beleza.
Neste jogo de uma casta obscenidade, somos predador e presa,
nesta pública intimidade, tingimos as paredes em vagidos imorais

Rasgando o céu num mergulho, reinventando o sacrossanto pecado.
No mais que perfeito conjugar dos corpos, no mais que certo, que errado.
Vens, antes que a noite lá fora adormeça, pois aqui, nós já somos imortais.

Vasco Guedes

quarta-feira, 14 de julho de 2010

No jardim da insensatez


Perco os passos e as linhas, entre as ruas e as páginas incolores tingidas
com sorte, sem norte, quiçá descubra os verbos e as áleas perseguidas.
Buscando as cores escondidas entre o granito e os olhares cinzentos
na demanda dos instantes, que se fazem maiores que os momentos.

Sem rumo ou roteiro, parto neste perto ou longe, além latitude dos dias
e busco esta quimera secreta, quem dera ao alcance, das minhas mãos vazias.
Levo “O Principezinho” de Saint-Exupéry, na memória, como bússola
descobrindo nas rugas de quem sou, um sorriso, virgem de caçula

E escrevo entre as veredas de um jardim secreto, a magia de um “era uma vez”
O guião de todos os sorrisos esquecidos, dos dias fugazes que são crepúsculo pouco após da aurora
Esqueço o tempo, e deixo me sorrir de novo, esses sorrisos de outrora

Sorrio nos olhos e nos olhos que me olham, semeiam-se outros, sem razão, agridoce loucura
sorrio, neste jardim, esta insanidade gentil, que dança livre e pura
salpicando os dias assim, de cor, sem vergonhas ou rubor, no jardim da insensatez…


Dedicado a todos aqueles, que no cinzento dos dias, se esquecem de sorrir…

Vasco Guedes

“façam o favor de ser felizes”…Raul Solnado dixit (R.I.P.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Rabelo vadio


E em passos amenos, pequenos,
se escreve, hoje, este caminho.
Por entre miosótis em acenos, e nenúfares serenos
Sou mais que lago, sou rio, jamais sozinho

Guardado nas tuas margens, ancorado no teu abraço
onde me escrevo, murmúrios gritados ao vento,
na torrente dos meus dias, és-me cais e alento
brisa que me guarda e embala, que me leva o cansaço

Em sons suaves de blues, meios tons de novo mundo
no reencontro dos desencontros, com voz de um mar à espreita
nas viagens deste abraço eterno e terno, que no fundo mim se deita

E guardas-te em mim, sem fim, entre as margens feitas de cetim e luz
és tatuagem do tempo, estrela que me prende, me guia e seduz
nestes passos amenos, onde me fazes rio vadio, velho rabelo, vagabundo

Vasco Guedes

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Na praia do fim do mar


Na praia do fim do mar,
deita-se o sol, amanhece a lua
onde guardo o sal da saudade do olhar
além dos náufragos, que se perdem em cada rua

Ali, nessa praia tão só minha, secreto tesouro
navego os sonhos, entre as dunas e entardecer
nos passos molhados, num caiado areal de ouro,
na praia do fim do mar, me encontro, para me deixar perder

Na praia do fim do mar, escuto dos búzios, as venturas e estórias
Pouso a menina dos olhos, e agarro a crina
Montado na espuma das ondas, de uns olhos de menina

E cavaleiro me faço, além marés e outras memórias
Cruzo Bojadores, tantas dores, na nau da fé e esperança
Na praia do fim do mar, me faço homem, nos meus olhos de criança

Na praia do fim do mar, emerjo num mergulho de peito aberto…

Vasco Guedes.

domingo, 11 de julho de 2010

Leonor


Hoje, assim como excepcionalmente poderá acontecer a nível pontual de futuro, deixo aqui um texto em tempos escrito, num dia da criança, por um sonho meu.

Hoje, e por estes dias ponderei deixa-lo aqui, por uma outra Leonor, esta agora minha "sobrinha", que nasceu recentemente... a esta, à minha e a todas as outras, além do seu nome...

e aos meninos, tambem...

Houve um sonho,
Contradança de um poema
Grito escrito no olhar
Sem que importe o tempo ou lugar
Sonata em mi, em si, dona de alma que gema
Houve um sonho…
Sonho secreto, no peito guardado
Esculpido num sorriso, paraíso tatuado
E houve um sonho,
De um conto de meia lua em segredo
Abraçada a face oculta, cantando sem medo
Um sonho de um novo amanhecer
Desenhado nos meus braços e na minha voz
Melodia encantada, embrulhada num “nós”
Presente de um futuro, milagre chamado nascer
Houve um sonho, de seu nome poesia
Pintado nuns olhos grandes, olhos cheios de magia
E nos dedos das mãos redondas e fantasia
Fazendo-me maior, que um qualquer dia fui
Como maior é o mar que na praia se dilui
De onda em onda, cada verso, cada ensaio
Olhar a fragilidade de um olhar de descoberta
Que abriga minha alma, jamais ali deserta
Olhar-me nesse sonho, meu poema, meu desmaio
E não ser já só homem, não ser apenas ilha
Fazer-me porto seguro, abraçar-te
Meu poema, obra de arte, ali olhar-te
A noite embalar-te e mil ternuras contar-te
Houve um sonho, meu tesouro, minha filha
E houve um sonho
Que trouxe comigo de alma despida
Olhando-te no berço, meu poema, minha vida
Olhar-te assim
Houve um sonho,
Ouve-me meu sonho
Nesta pública intimidade
Como pedaços de noite e dia
Princípio escrito da eternidade
Em tons suaves, na tua pele, melodia
Houve um sonho
O tudo no meu vazio
Desnudo como o meu rio
Ter-te nos olhos, meu perfeito jardim
Ser-me teu e tu, parte de mim
Houve um sonho,
Um para sempre
… para sempre, até para sempre, um qualquer
Para sempre menina, mesmo já mulher
Porque os anos, são dias lentos, desiguais
Quando passeiam os filhos, aos olhos dos pais
Houve um sonho
Sonho de alma, sonho tão meu
Dos teus primeiros passos, rabiscos, papá e mamã
De te poder embalar, e descobrir em ti, novo mundo, a cada manhã
Como pedaços que fossem de céu
E dar-te o mundo como se meu fosse
E canções e fiapos de algodão doce
Houve um sonho
Dar-te a mão no teu gatinhar
E guardar-te em mim
Até te levar ao altar
Houve um sonho
Que hoje me fiz escrever
Como prece que guardo
De um sonho por acontecer
Em asas que deixo voar aqui
Esperança nesses olhos de criança
Que me dês, um pouco de ti
Houve um sonho
Sem prazo marcado
Fim de tarde de Outubro, Maio ou Julho
Sonho assim, meu sorriso, meu orgulho
Houve um sonho
Ser teu mestre, e um dia ancião aprendiz
Ser assim esse sonho que sonho
Sonho sonhado de ser (o mais) feliz
Houve um sonho
O meu maior poema de amor
Estrofes de dois, num ser mais profundo
Detalhe de céu, pousado no mundo
Houve um sonho, de seu nome Leonor.

Dedicado ao meu maior sonho,
A filha que sonhei um dia ter.
Porque hoje é o dia da criança
Porque hoje, é o meu olhar também de infante que me guarda a esperança.


Vasco Guedes, (em 01-06-2007)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Eli


Sei que te gosto,
sem até que te conheça o rosto,
sei que te chamam de tantos nomes
Tu que és só Tu, e que nos matas a maior das fomes

Sei que te amo, que sou teu
ainda que por vezes, pareça nos actos agnóstico ou ateu
mas sei que em ti cresço, e por ti sou maior
pois sei que no íntimo de mim, tu és o verbo e a alma de amor

E se aqui e nos dias me dispo e assim me mostro
é do eu que é Teu, e por tua vontade prostro
perdoando-me os erros que me fazem imoral

E por tua palavra, serei um pouco mais mortal
humano na forma, nos trejeitos que cada qual tem os seus
maior do que o tamanho do corpo, apenas por ti, meu Deus

E nas palavras e actos, erro, sem ponta de razão
no alto dos céus, não deixas que caia, ao dares-me perdão
aceitas-me assim, entregas-me sempre tua mão
pois és pai, amigo e irmão

E todas as palavras que diga, tantas ficam por dizer
perdoa este teu filho, por te não saber escrever
não se te publique, este meu triste e humilde ensaio
em nenhum outro meu rabisco, houve tanto receio, me retraio

Mas aqui te deixarei, num suspiro, a minha gratidão, por me dares fé
por te saber a meu lado, sempre que caia, me farás regressar e a por-me de pé
és o sentido da palavra, a força da paz, e a alma da harmonia

Tu, que és a luz na noite, e os meios tons de cada dia
por isso te agradeço, e te digo uma vez mais, que te amo, que te gosto
ainda que te saiba com tantos nomes, e te não conheça o rosto...

Obrigado, Eli,
Obrigado, Pai.

Vasco Guedes

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Amanhecer


Amanhece, a manhã, no teu sorrir
na tela do teu corpo, desmaia o sol, nesse palco do sentir
desenhando a filigrana da tua silhueta em aromas de mil instantes
no perfume do teu sorriso, que leva o siso , nesse nada ser como dantes

Amanhece a vida, antes até da noite ter partido
em meios tons de prata, agarra-te num tango vadio, rendido
e bebe dos olhos, o sabor da tua boca, como por capricho
e aporta em ti, o saber amar, que sabe a mar, num doce feitiço

E a rima que não rima, desigual antifrase que neste ensaio louco desacontece
é a cor dos meus olhos, quando o meu olhar no teu, gentil, amanhece
e perco a voz, e no olhos te digo, grito e recito, esse meu secreto saber

Que me navega além noites e dias
que como tu, me habita além sonhos e fantasias
e que num suspiro te rogo, que me deixes em ti, amanhecer


Vasco Guedes

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Marca d' água


És-me! Como tatuagem, assim poema

como tango de poetas silhuetas, de sol e lua

Trazes-me o fogo nas veias, e dou-me de alma nua

És-me, assim, paixão, sem nome, sem tema


És-me, como miragem, marca d'água, sonho terno

o beijo errante que se escapa, num cigarro, fumado com ardor

Ópio, vicio que agarra, nessa pele tua, África no sabor...

Fugaz instante, que em ti, se faz eterno


És-me, o perfume que desagua, entre o corpo e as mãos despidas

As pétalas de um olhar (de luar), na contradança de teu soslaio

Que fazes nascer em mim, o querer de homem, entre sorrisos de catraio


És-me... (n)o fim dos dedos, sem medos, o princípio de tudo,

o para sempre e um pouco mais, escrito num brado mudo

a escultura de um soneto, em silêncios e palavras na alma tingidas
E assim sou eu...teu!


Vasco Guedes

Entre(as)linhas de um regresso


Olho a página branca, que me olha, sem peias, e solta

procurando as palavras no tempo, de um tempo que não volta

buscando as ondas revoltas, onde se escapara a palavra,

Neste céu vazio, de papel, onde o negro do verbo, se lavra.


E no compasso de cada passo, passado e por caminhar

desfraldo as velas do tempo dos sonhos, e neles me deixo navegar.

De novo, como uma primeira vez, um regresso, tantas vezes adiado

Expresso, no brilho dos olhos, nu desejo de um beijo roubado,


De novo navegante, minha bússula, é um metrónomo sem idade

que me marca os passos, e os abraços, já baços, aos olhos da saudade

E aqui regresso, às entrelinhas, mestras minhas, humilde aprendiz


De novo sou guerreiro, desta minha cifrada grafia,

velho louco, grito rouco, que da prosa faz geografia

nas margens deste entardecer, nas margens do rio de mim, assim... ser feliz